domingo, 11 de setembro de 2011

À Reitoria da UFSM

À Reitoria da UFSM

Dando sequência ao processo de negociação proposto pelas comissões de diálogo entre administração central e comissão estudantil deliberada em assembleia, os estudantes que ocupam a reitoria apresentam uma manifestação formal propositiva, objetivando avançar na concretização de melhorias para a comunidade universitária. Desta forma, solicitamos a resposta em reunião na segunda-feira à tarde.

1. Restaurante Universitário

1.1. Garantia de três refeições para todos os estudantes em todos os campi da UFSM, sem aumento de preços.

1.2. Implantação e execução imediata, após o término da greve dos TAES, de um projeto piloto até o final de 2011, tendo em vista que possivelmente, no ano de 2011, sobrarão recursos devido à greve, com a participação de uma comissão paritária, já fazendo uma projeção para 2012.

1.3. Abertura de concurso para servidores públicos nos cargos do RU.

2. MORADIA E BSE

2.1. Instalação de grades nas portas dos apartamentos das casas dos estudantes até dezembro deste ano, para garantir a segurança dos moradores.

2.2. Ativação do Conselho de Administração da Moradia Estudantil, no prazo de 1 (um) mês.

2.3. Autonomia da Casa: reafirmação da declaração do pró-reitor de Assuntos Estudantis feita no dia 23 de novembro de 2009 (ANEXO I).

2.4. Garantia de que a infraestrutura utilizada para disponibilização de internet na CEU II seja adequada para demanda. Considerando que os roteadores instalados na casa são de uso doméstico, solicita-se a instalação de antenas OIW 15W e garantia de no mínimo 20% da banda total de internet da universidade para CEU II nos períodos de maior fluxo de dados na casa.

2.5. Pavimentação das ruas das CEU’s até o final de 2011.

2.6. Não interferência, pelo NAE (Núcleo de Atenção ao Estudante), nas atribuições das Diretorias das Casas e debate público de suas ações.

2.7. Reconhecimento e respeito ao atual Regimento Interno da CEU II.

2.8. Garantia de estrutura, instrumentos e informações para o funcionamento das diretorias – 7 (sete) bolsas mensais, no prazo de 1 (um) mês.

2.9. Acesso para consulta, com o objetivo de que a direção da CEU II possa cumprir o art. 7º da resolução 04/2008, dos dados do SIE e DERCA, no prazo de 1 (um) mês.

2.10. Retirada do posto de vigilância da sala do bloco 13, e que esse seja transferido para a guarita do “paradão”, sem interrupção do serviço. A sala do bloco 13 deve ser gerida pelos morados da CEU II através dos conselheiros dos blocos ou assembleia geral da CEU II; garantia de não construção de uma nova guarita.

2.11. Comprometimento com a construção de mais um banheiro (feminino e masculino) na União Universitária até o final de 2011.

2.12. Garantia de permanência na União Universitária para estudantes que não são calouros enquanto os trâmites para aquisição do BSE não são concluídos.

3. ESTUDANTES BOLSISTAS

3.1. Criação imediata de uma comissão paritária no CONSUN para a formulação de um estatuto das bolsas de Assistência Estudantil (bolsa trabalho) e elaboração de um plano de conversão gradual das mesmas em bolsas de pesquisa, ensino e extensão. O estatuto e o plano de conversão devem ser apresentados aos Conselhos Superiores no prazo de 2 (dois) meses.

3.1.1. Do Estatuto do bolsista:

Inclusão, neste Estatuto, de direitos análogos aos previstos para os estagiários na Lei do Estágio (Lei 11.788/2008), como direito a férias, previsão de liberação para atividades acadêmicas, carga horária fixa, etc; assim como reconhecimento de uma entidade representante dos bolsistas no momento de sua criação.

3.2. Reajuste imediato do valor das bolsas em 30%, acrescido do valor da inflação acumulada no período, com sua correção de acordo com o reajuste do salário mínimo.

3.3. Aumento do número de bolsas de forma proporcional ao aumento do número do corpo discente da Universidade.

4. CESNORS

4.1. Abertura imediata de licitação para promover a construção e a ampliação de moradias estudantis nos campi de Frederico Westphalen e Palmeira das Missões.

4.2. Criação imediata de bolsas temporárias de auxílio-permanência-moradia para todos os estudantes que possuam BSE não contemplados com vagas nas CEU’s, com comprometimento, por parte da reitoria, de que a oferta deste benefício não implicará na ausência de ampliação de oferta de vagas nas CEU’S.

4.3. Comprometimento em efetivar a proposta já firmada pela Reitoria no dia 06/09/2011 e apresentada aos estudantes ocupantes, de encaminhar proposta de moradia feminina no prazo de 1 (uma) semana.

4.4. Garantia de que os critérios de acesso às CEU’s nos campi do CESNORS sejam os mesmos do campus de Santa Maria.

4.5. Redação de uma nota pública pela reitoria ou encaminhamento de ofício à Câmara de Vereadores e à Prefeitura de Frederico Westphalen manifestando-se favoravelmente à instituição da meia passagem estudantil, à criação de uma parada de ônibus coberta em frente ao CAFW, bem como à criação de linhas de ônibus aos sábados e domingos.

4.6. Compromisso em promover, até o final de 2011, melhoria das condições de acesso dos alunos do CESNORS de Frederico Westphalen ao RU do CAFW, com a melhoria da pavimentação e construção de uma marquise, uma vez que a via disponível é íngreme e sofre com retenção de água em certos pontos em dias de chuva.

4.7. Criação de uma sede própria para DCE e DA´s até final de 2011, com espaço suficiente para atender as necessidades dos alunos.

4.8. Abertura da biblioteca no campus de Frederico Westphalen no período das 7:30 às 17:30.

5. BIBLIOTECA

5.1. Resposta sobre a ampliação dos horários das bibliotecas setoriais (cursos noturnos) e biblioteca central, no prazo de 20 dias, com o horário de funcionamento até a meia-noite e aos sábados até às 20h.

6. PAUTAS GERAIS

6.1. Comprometimento com a proposta apresentada pela reitoria no dia 06 de setembro de 2011, de encaminhamento de uma discussão a respeito de uma UBS/Escola, no prazo de 10 dias, ressaltando que esta unidade de saúde deve ser alocada temporariamente no espaço da União Universitária.

6.2. Garantia de não encaminhamento de proposta de venda ou permuta dos prédios da Antiga Reitoria e CEUI/DCE.

6.3. Encaminhamento do pedido de estatuinte paritária das três entidades (DCE, ASSUFSM e SEDUFSM) na próxima reunião do CONSUN.

6.4. Reformas nos ginásios do CEFD.

6.5. Garantia aos estudantes estagiários da área da saúde de fazer refeições gratuitas no HUSM, e que, durante o período de férias, esta garantia seja estendida a todos os bolsistas.

6.6 Garantia do abono das faltas dos estudantes ocupantes da reitoria e da não perseguição política dos mesmos, conforme carta enviada ao reitor no dia 6 de setembro de 2011.

6.7. Realização de audiências públicas de prestação de contas do cumprimento das reivindicações no salão Imembuí.

6.8 Publicização dos documentos oficiais da Universidade no sítio eletrônico da Instituição.

7. PAUTAS ESPECÍFICAS

7.1. MEDICINA

7.1.1. Redação de nota pública contra o autoritarismo no Colegiado do Curso de Medicina e na Universidade em geral, no prazo de 10 dias.

7.1.2. Fim do contrato duplo HUSM-Docência, a fim de que os docentes cumpram integralmente sua carga horária.

7.1.3 Contratação de 3 (três) professores para o departamento de Clínica Médica e um professor para disciplina de Saúde do Adulto e do Trabalhador.

7.1.4 Apuração de processos administrativos relativos a professores faltantes.

7.2. COMUNICAÇÃO SOCIAL

7.2.1. Construção de um prédio destinado à Comunicação Social, com espaço físico suficiente para abrigar e atender as demandas dos 4 (quatro) cursos (Jornalismo, Produção Editorial, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas).

7.3. FISIOTERAPIA

7.3.1. Aumento do espaço físico, não sucateamento do serviço da Fisioterapia e aquisição suficiente de materiais básicos para o atendimento.

7.4. TERAPIA OCUPACIONAL

7.4.1. Comprometimento em multar a empresa responsável caso haja atraso na entrega do novo prédio do CCS e repactuar para que seja entregue até o início do próximo semestre e, em caso de descumprimento do novo prazo, o encerramento do contrato com as empresas atuantes, promovendo sua substituição por outras.

7.4.2. Comunicação oficial dentro de 48 horas ao DCE e ao Diretório Acadêmico do Curso de Terapia Ocupacional a existência de licitação para os elevadores e mobiliários do prédio. Em caso negativo, promover a abertura imediata de licitação para tal fim.

7.5. PSICOLOGIA

7.5.1. Aumento do número de vagas para docentes no Departamento de Psicologia, visto que o número atual não supre as demandas dos cursos de graduação e pós-graduação. Realização de contato com a chefia departamental do curso de psicologia para elaboração de justificativa junto ao MEC para ampliação das vagas de professores efetivos.

7.6. ARQUITETURA

7.6.1. Criação de um prédio novo para o curso de arquitetura e urbanismo ou realocação do curso nas instalações do Centro de Tecnologia, com sala para o diretório acadêmico.

7.6.2. Aumento do número de vagas para ingresso no curso.

7.6.3. Acréscimo de corpo docente em função do aumento das vagas, na proporção de 15 alunos para 1 (um) professor.

ANEXO I

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Abraço na Reitoria (vídeos)



Nota de Esclarecimento Público para o Jornal A Razão

Também disponível no blog da ocupação:

Na edição do Jornal da A Razão de hoje, dia 06 de Setembro de 2011, a ocupação da Reitoria da UFSM foi tratada na manchete de capa como um movimento que “já passou dos limites”. Na reportagem, no interior do jornal, foi colocado que os estudantes “expulsaram” o repórter e o fotógrafo do Jornal, o que não aconteceu. Em função disto, enviamos uma nota ao Jornal que publicamos abaixo na íntegra.

NOTA DE ESCLARECIMENTO PÚBLICO

Santa Maria, RS – 6 de setembro de 2011

Cremos que a gestão da universidade não vem cumprindo com seu papel de forma eficiente, principalmente no que tange a contratação de novos professores e técnico-administrativos e a melhoria da infraestrutura e da assistência estudantil – demandas históricas e de inegável deficiência na atual expansão da Universidade. Por isso, em Assembleia Geral dos Estudantes, na última quinta-feira, dia primeiro de setembro, decidimos pela ocupação pacífica e organizada do prédio da Reitoria da Universidade Federal de Santa Maria.

Nosso movimento é legítimo, pois se trata de um prédio público, onde o povo tem a liberdade e o dever de exigir respostas daqueles que lidam com os recursos públicos. Somos todos estudantes e, como tais, zelamos pelo patrimônio desta que é também nossa Universidade. Julgamos que o fechamento da entrada principal fosse necessário, pois, mesmo que cobremos – já há anos – atitudes concretas com respeito a pautas que têm sido colocadas em segundo plano, a Reitoria não se dispôs a negociar efetivamente.

Ressaltamos, no entanto, que a entrada principal não é o único meio de acesso ao prédio, havendo duas outras entradas, que foram fechadas por decisão do próprio vice-reitor, Dalvan Reinert. Destaca-se que ontem, dia 5 de setembro, foi decidido que haveria reunião às 16 horas- com a comissão da reitoria incumbida de negociar- mesmo com a ciência da Reitoria sobre o fechamento parcial da entrada principal conforme consta em ata, assinada pelas duas comissões designadas para a negociação.

Organizamos uma Comissão de Ética que analisará a entrada de pessoas envolvidas em demandas urgentes, como, por exemplo, as do Hospital Universitário e as relacionadas às licitações necessárias para o atendimento às propostas do movimento. Nesse ínterim, entendemos que a mídia não deva tampouco ter acesso ao prédio, pois, como vimos na edição do jornal A Razão do dia de hoje, a imprensa em geral não tem tratado o assunto de forma minimamente imparcial.

A Comissão de Negociação formada é mediadora, salientando-se que todas as decisões, incluindo a manutenção da ocupação, cabem, portanto, a todos os estudantes aqui presentes. Ratificamos, assim, que permaneceremos ocupando o prédio até que a Reitoria apresente um projeto que contemple todas as reivindicações, que, afinal, são de toda a comunidade universitária.

Saudações estudantis,

Assembleia Geral de Ocupação

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"Educação qualificada com a aliança do povo com a estudantada"

Letra de uma paródia criada na ocupação da Reitoria da UFSM.


"Só, só tem educação qualificada
Com a aliança do povo com a estudantada (x2)

Nossa primeira tarefa é ocupar
Reitoria improdutiva
Que não colaborar (x2)

Só, só tem educação qualificada
Com a aliança do povo com a estudantada (x2)

Nossa segunda tarefa é resistir
Ficar bem organizado
E lutar pra não sair (x2)

Só, só tem educação qualificada
Com a aliança do povo com a estudantada (x2)

Nossa terceira tarefa é produzir
O saber coletivo
Pra colher e repartir (x2)

Só, só tem educação qualificada
Com a aliança do povo com a estudantada (x2)

E a nossa quarta tarefa tá na mão
Mobilizar mais estudantes pra crescer a ocupação (x2)

Só, só tem educação qualificada
Com a aliança do povo com a estudantada (x2)"

Fotos e Vídeos da Ocupação


Protesto da Terapia Ocupacional, Assembleia Geral e ocupação da Reitoria da UFSM.





























segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Reitoria UFSM. Status: OCUPADA!

Colegas estudantes!

Desde a assembléia geral dos estudantes, no dia 1º de setembro, acadêmicos de vários cursos da UFSM, frente à atual situação de precariedade do ensino público brasileiro, ocupam a reitoria para reivindicar o cumprimento das seguintes pautas:

Assistência Estudantil: 3 refeições diárias no RU para todos e expansão do horário de uso da biblioteca; ampliação e reajuste das bolsas de ensino, pesquisa e extensão; gestão democrática e administrativa das CEU´s; internet de qualidade em todas as CEU´s e colocação de grades nas portas da CEU II; por abertura da CEU em Silveira Martins; por abertura e ampliação das CEUs no CESNORS (somente 36 vagas em cada campi); Reestruturação da Moradia Estudantil no Colégio Agrícola de Frederico Westphalen (CAFW) e Moradia Feminina.

Infra-Estrutura e Servidores: construção de Unidade Básica de Saúde Escola no campus da UFSM; melhoria na estrutura das salas de aula e laboratórios; ampliação e finalização das obras em todos os Campi; aumento de contratação de técnico-administrativos e professores efetivos via concurso público; abertura de mais uma saída no RU.

Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade: maior poder de decisão estudantil nas deliberações da UFSM e dos cursos; contra a venda do prédio de apoio; contra o PL 1749 (ex-MP 520), por um HUSM 100% SUS; 10% do PIB para a Educação Pública JÁ!

Além da defesa das pautas em unidade na luta com técnicos e professores, construiremos atividades culturais, espaços de formação. Traga seu colchão e cobertor! Venha para a ocupação!

domingo, 4 de setembro de 2011

“A classe dominante não tem interesse em mudar a educação”

Da Carta Maior, por sugestão de Giovanni Torri no Twitter



O peso de seus argumentos em programas de televisão, a clareza de suas intervenções diante das autoridades e a capacidade inata de aglutinar as massas, converteram Camila Vallejo na líder mais visível deste movimento que já derrubou um ministro e jogou o governo de Sebastián Piñera nas cordas. Usando um jeans surrado, um lenço artesanal no pescoço, um piercing no nariz e esse olhar que esconde uma das mentes políticas mais brilhantes que apareceram no Chile nos últimos anos, Camila concedeu uma entrevista exclusiva a Christian Palma, correspondente da Carta Maior em Santiago do Chile.

Há três meses, Camila Vallejo, a carismática presidenta da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (Fech), podia tomar um metrô tranquilamente e caminhar sem chamar a atenção mais do que qualquer outra mulher chilena. Nesse tempo, os estudantes universitários e secundaristas iniciavam um movimento sem precedentes que inclui até hoje ocupações e greves nas escolas do país e diversas marchas pelas principais cidades chilenas pedindo fundamentalmente o fim do lucro no sistema educacional, mais qualidade nos conteúdos ministrados nas salas de aula e gratuidade completa na educação pública.

Ela, com paciência, visitava os colégios explicando ponto por ponto as razões das reivindicações estudantis e parava para conversar com os jornalistas com calma. Foi em um desses eventos que a conheci. Usando um jeans surrado, um lenço artesanal no pescoço, um piercing no nariz e esse olhar que esconde uma das mentes políticas mais brilhantes que apareceram no Chile nos últimos anos, trocamos algumas palavras.

A revolução estudantil se incendiou, os argumentos dos estudantes foram entendidos e valorizados pela cidadania e Camila Vallejo demonstrou que é muito mais do que um rosto bonito. O peso de seus argumentos em programas de televisão, a clareza de suas intervenções diante das autoridades e a capacidade inata de aglutinar as massas, converteram Camila na líder mais visível deste movimento que já derrubou um ministro e obrigou o governo de direita de Sebastián Piñera a oferecer três alternativas para destravar o conflito. Mas nenhuma delas satisfez os estudantes.

Tamanha foi a pressão sobre o governo, que o próprio Piñera chamou os jovens para uma conversa neste sábado no palácio de La Moneda. Um dia antes deste convite que pode marcar o início do fim da crise, Camila Vallejo, achou um espaço em sua agenda e concedeu esta entrevista exclusiva à Carta Maior, recém chegada de Brasília, onde se reuniu com seus pares brasileiros. Ela reconhece que tem tempo apenas para comer.

Considerando as dezenas de pedidos de entrevistas solicitadas por meios de comunicação chilenos e estrangeiros, interessados nesta jovem mulher, alguns minutos com ela são um luxo.

Estrela das redes sociais – como boa parte de sua geração – convocou milhares por meio do Facebook e do Twitter, mas também foi ameaçada de morte ou insultada covardemente pela web. Tranquila, diz que está consciente dos riscos que isso significa, mas, mais importante ainda, sabe a tremenda responsabilidade que passa a ter com apenas 23 anos.

Senhoras e senhores, com vocês Camila Antonia Amaranta Vallejo Dowling, a menina que jogou o governo de direita de Sebastian Piñera nas cordas. Saiba por que.

- Você diz que as demandas estudantis não são um assunto de direita ou esquerda, mas sim de toda a sociedade chilena. Acredita que a cidadania entendeu isso?

Este movimento alcançou uma massividade e uma transversalidade que nunca tinham sido vistas desde o retorno à democracia (1990). Uma enorme parcela daqueles que, em um determinado momento, apoiaram Piñera, hoje se dá conta de que este não é um ataque direto à sua posição, mas sim a um modelo de educação que concebe a educação como um bem de mercado e não como um direito, e também a um sistema democrático que hoje, se reconhece , é muito estreito.

O questionamento à conduta do governo, inclusive de cidadãos que pertencem a setores que, em um determinado momento, apoiaram o atual presidente, deixa evidente que existe o entendimento de que a luta que hoje travamos é pelo direito à educação e por uma mudança de sistema que beneficie toda a sociedade e o desenvolvimento do Chile. Ela não se limita a buscar benefícios para um setor político particular.

O movimento se polarizou entre direita e esquerda. Isso é prejudicial?

Para entender esse conflito é preciso analisá-lo a partir de duas perspectivas. Por um lado, é preciso considerar que, junto à população, a problemática educacional se transversalizou de uma forma nunca vista, o que tem gerado um apoio massivo ao movimento vindo de diversos setores e atores ligados à educação. Por outro lado, temos um setor muito mais minoritário e ideológico representado pelas classes dominantes, que não estão interessadas em uma mudança na educação, tanto porque o atual sistema beneficia diretamente seus bolsos, como porque ele os mantêm em sua posição de privilegiados frente a uma população com fraca educação. A polarização de duas grandes alternativas educacionais é produto da postura intransigente desse setor. Ou seja, a polarização não se encontra no interior do movimento estudantil – que tem sabido priorizar a unidade atuando de forma conjunta -, mas sim representa uma enorme contradição entre as mudanças que a cidadania está exigindo hoje frente uma minoria conservadora cujos interesses são representados pelo Executivo.

Qual a consistência deste movimento para resistir às artimanhas urdidas no espectro político da direita e também do governo?

Hoje o movimento conta com uma série de fortalezas, tais como a amplitude que ultrapassa o meramente estudantil e o transforma em um movimento social; a unidade dos diferentes atores ligados ao mundo educacional, que após um longo processo conseguiram conjugar esforços em torno de pautas unificadas; a representatividade dos anseios da cidadania, na medida em que tem ocorrido processos democráticos por meio dos quais se definem as melhores estratégias a utilizar; e, finalmente, conta com a experiência histórica dos diferentes movimentos que nos precederam como o foi o movimento estudantil dos “pinguins” (estudantes secundaristas) de 2006.

O movimento se vale de todas essas ferramentas para fazer frente às diferentes artimanhas que podem surgir tanto da articulação da direita como do governo, as quais, até aqui, temos sabido enfrentar.

Atuação do governo

Para entender um pouco mais o sistema educacional chileno e por que a direita não quer transformá-lo é preciso ter em mente que há três tipos de escolas de educação superior herdados da ditadura de Pinochet. Há os centros de formação técnica, os institutos profissionais e as universidades que se dividem em tradicionais, com aportes do Estado, e privadas. O ingresso nelas passa por uma prova de conhecimentos e, para os que não têm dinheiro, há um sistema de créditos outorgados pelo setor privado quase sem nenhuma regulação e com juros altíssimos. Em 2006, a presidenta Michelle Bachelet se complicou com a “Revolução dos Pinguins” que mobilizou só os estudantes secundaristas. Eles receberam promessas que não foram cumpridas e agora, com 80% da cidadania aprovando as mobilizações, o governo de Piñera recebeu os protestos na sua porta.

Qual sua avaliação sobre a atuação do governo no tema? Não deu resposta às suas demandas, faz declarações infelizes saindo da boca do próprio presidente (“não há nada grátis na vida”, “as pedras nos levaram à ruptura da democracia”) e tenta dar um perfil violento às marchas (com infiltração de policiais).

O governo não está escutando a cidadania, o que mostra que está disposto a seguir defendendo intransigentemente seu modelo educativo, inclusive assumindo o custo de omitir o que o povo tem demandado massivamente durante mais de três meses.

Não contente com isso, tem explorado ao máximo as ferramentas com as quais conta o governo e a direita chilena – meios de comunicação, força policial e militar, respaldo dos grandes grupos econômicos – para deslegitimar o movimento, baseando-se na mentira por trás de estratégias populistas.

A pressão social que este movimento conseguiu acumular obrigou Piñera a mostrar do que é feito este governo, quais são os limites democráticos que ele está disposto a cruzar e quem representa realmente, o que constitui um enorme desprestígio e desaprovação de sua gestão, o que já foi expresso nas últimas pesquisas que, historicamente, eles mesmos têm validado.

O questionamento à incapacidade de manejar a demanda social por uma educação pública gratuita e de qualidade para todos alcança novos níveis na medida em que o grau de repressão ultrapassou qualquer limite de tolerância de um Estado de Direito. Durante esses meses de protesto, temos sido testemunhas de aberrantes abusos por parte do corpo policial, sob ordens do Executivo, através do Ministro do Interior e Segurança Pública, Rodrigo Hinzpeter, o que atingiu seu ápice com a morte de um estudante na semana passada.

Qual sua opinião sobre o papel da Concertação (oposição) em tudo isso?

A Concertação desemprenhou um papel bastante oportunista tentando
obter ganhos políticos com o que ocorre hoje no país. Neste sentido vemos hoje representantes dessa coletividade criticando o modelo educacional, como, por exemplo, o ex-presidente Ricardo Lagos que diz “que o modelo não já não aguenta mais”, esquecendo-se que foram eles mesmos que administraram e aprofundaram a mercantilização da educação e que, por outro lado, um importante setor dessa organização é formado por proprietários de colégios, por investidores no negócio da educação superior.

Apesar disso, dado o nível de participação que a Concertação tem no Parlamento, corresponde a eles agora responder a altura de suas declarações em favor do movimento. Ou seja, devem assegurar que os projetos de lei que surgiram dessas mobilizações representem integralmente o que as demandas sociais estabeleceram e, por motivo nenhum, devem voltar a negociar pelas costas do movimento, como terminou ocorrendo com o processo da Revolução dos Pinguins de 2006.

Com a foice e o martelo no coração

Camila Vallejo é filha de ex-militantes allendistas e referência das Juventudes Comunistas. Na atualidade, foi obrigada a congelar a tese para se formar em geografia. Ela não reconhece abertamente, mas tampouco descarta seguir uma carreira política.

Já pensou em seguir sendo dirigente no futuro, ainda mais em um país carente de líderes jovens?

Sobre o meu futuro, tenho dito que tenho um projeto pessoal de caráter acadêmico, ou seja, gostaria de terminar meu curso e seguir neste caminho. No entanto, concebo os cargos de representação como uma responsabilidade e de modo algum como um privilégio, pelo que, a priori, não posso dizer que não continuarei tendo cargos de representação popular.

Alguns dirigentes estudantis internacionais olham com especial atenção para o Chile, depositam esperança neste movimento e estão atentos para que as conquistas não sejam perdidas. Como avalia essa tremenda responsabilidade?

Creio que a esperança de que as conquistas desse movimento não sejam perdidas, assim como a responsabilidade por elas é compartilhada pela totalidade dos envolvidos. Se é verdade que, às vezes, minha pessoa é transformada em ícone do movimento, temos claro que a sua construção é uma conquista que pertence a todos. Confio que temos feito as coisas corretamente, o que é demonstrado pelo incrível apoio cidadão que nos acompanha três meses depois de iniciada essa mobilização. Sob estas condições, se o governo não tiver suas demandas satisfeitas, isso será responsabilidade da intransigência do governo e da traição da cidadania por parte da direita chilena, o que não estamos dispostos a tolerar.

O que te parece o modelo educacional de Lula (ProUni) que estabelece um mecanismo de bolsas de estudo para estudantes de universidades privadas com finalidade lucrativa, mas que está dirigido especialmente para estudantes de baixa renda e é financiado com isenções fiscais para esses estabelecimentos?

Para além do detalhe técnico das propostas, o que hoje estamos defendendo no Chile são ideias políticas muito concretas. E o fim do lucro na educação é uma das consignas que teve maior adesão da cidadania. A própria lei chilena de Educação criada na ditadura proíbe o fim do lucro em todas as universidades. O cumprimento dessa lei é um dever que esse governo descumpriu grosseiramente e que, após essa mobilização, não nos contentaremos com a continuidade dessa situação. É preciso avançar na direção da proibição do lucro em todo o sistema educacional, desde o pré-escolar a todos os setores de educação superior, assegurando sanções para aqueles que descumprirem esta lei e para aqueles que fizeram isso durante os últimos 30 anos.

Qual sua impressão sobre o apoio dos trabalhadores às mobilizações estudantis e sobre a convocação de outra mobilização massiva para 8 de setembro?

O fato de os trabalhadores apoiarem as mobilizações é algo fundamental para cada processo histórico revolucionário, pois como sujeito histórico o trabalhador que hoje se encontra diretamente explorado pelo processo produtivo sobre o qual se sustenta nossa sociedade capitalista neoliberal.

Se nós, jovens estudantes, somos chamados a gerar e fomentar as mudanças, temos que ter claro que estas devem se realizar junto aos trabalhadores, pois são eles, finalmente, o real motor da história.

Você sofreu críticas e ataques maliciosos. Você disse que eles fazem parte do jogo, mas alguns ultrapassam todos os limites, como o de que é manipulada pelo Partido Comunista. O que diz sobre isso?

Efetivamente, eu sou militante das Juventudes Comunistas do Chile e isso é algo que nunca escondi, muito pelo contrário, é algo do que sinto muito orgulho, pois é uma grande escola que me permitiu crescer e desenvolver-me politicamente.

Além disso, é de se esperar que, na atual situação, aqueles que não estão à altura do conflito busquem argumentos como estes para atacar, não somente a mim, mas também ao resto dos dirigentes. Mas o certo é que hoje eu represento não só os estudantes da Universidade do Chile, cuja Federação presido, mas também me toca ser a voz de todos os estudantes do Chile, enquanto porta-voz da Confederação de Estudantes do Chile (Confech) e a legitimidade que tanto os estudantes como a cidadania concederam a meu desempenho evidencia que essas acusações não passam de sujas estratégias desesperadas de quem, como disse anteriormente, não tem sido capaz de ganhar o debate.

Tradução: Katarina Peixoto